terça-feira, 8 de março de 2016

Semana do Poder Feminino Indiano - Mardaani


Esta é a Segunda Semana do Poder Feminino Indiano  nos blogs de cinema indiano da rede Challo. A semana ocorre concomitantemente à semana da mulher, do Dia Internacional da Mulher, e se propõe, como o nome bem diz, a trazer o foco da nossa semana exclusivamente à mulher indiana e sua importância no cinema, bem como na sociedade. 

Bollywood não é a indústria mais prolífica em matéria de feminismo e conscientização das mulheres. Definitivamente não. Trata-se de uma indústria que valoriza muitas vezes aparência antes de talento e despreza pessoas — principalmente, especialmente, mulheres — que saiam de seu padrão ideal de corpo, peso e até mesmo cor de pele. Entretanto, desde a última Semana do Poder Feminino Indiano (em 2013), pudemos perceber uma grata mudança no cenário da mulher em Bollywood. Se antes era difícil encontrar algum filme com protagonismo feminino que não fosse voltado à visão idealista da mulher como objeto romântico ou embelezador de ambiente, na organização desta semana notamos um aumento considerável de filme protagonizados por mulheres em vários aspectos e quebra de padrões. 

O que isso, realmente, significa para a Índia? Até que ponto a mudança da imagem da mulher indiana nos filmes afetará a conduta que as cidadãs têm em seu dia a dia? Bem, a resposta para isso não sabemos ainda, mas já prenunciamos boas coisas diante da perspectiva. 

Para representar esta semana tão importante para nós da blogosfera Challo, escolhi falar sobre o filme Mardaani, de 2014, estrelado por Rani Mukerji. 

Mardaani conta a história do ponto de vista de Shivani Shivaji Roy, uma policial de Mumbai que se vê descobrindo o nefasto mundo do sequestro e prostituição infantil, após o misterioso sumiço de Pyaari, a ada amiguinha de sua sobrinha. 

A história é envolvente. Confesso que no começo não dei muito pelo filme ao ver a Rani no papel de mulher porradeira badass, mas não passa nem meia hora e você já se vê entretido e curioso por mais. Rani me surpreendeu mais uma vez — ela não cansa de fazer isso — pela excelente atriz que é. De doce mocinha a policial obstinada, ela nos convence onde quer que seja. Meus olhos não deixavam de brilhar pelo desempenho maravilhoso desta mulher incrível no filme. O rapazinho que faz o principal vilão também é excelente. Não o conhecia, seu nome é Tahir Raj Bhasin, mas estou impressionada. 

Além de tudo, é uma gracinha. 
Bem, por ser nossa Semana do Poder Feminino, trarei o enfoque do post a questões concernentes a nós, mulheres. 

Mardaani é um filme diferente, ousado e envolvente, porém não convence. E não convence por um motivo: aquilo não é real. Shivani Shivaji Roy não é uma mulher que exista no universo indiano, extremamente machista e conservador. Ela é a mulher que deveria existir, ela é a personificação do que gostaríamos de ver, do que esperamos ver, mas ela... não existe. E por que não existe? Porque a sociedade não quer. Porque a sociedade não deixa. 

Inclusive, o nome do filme deixa isso muito claro. Mardaani, traduzindo ao pé da letra, seria "a mulher macho", a mulher masculinizada, a durona. O próprio nome do filme põe em questão que o papel que Shivani desempenha é o papel do homem na sociedade indiana. É o papel que geralmente vemos com mocinhos dishoom-dishoom como Salman Khan e Ajay Devgn. E digo, é maravilhoso poder ver uma mulher também desempenhando esse papel. A cada cena de ação da Rani, eu vibrava; a cada ameaça que ela fazia ao vilão, eu ficava satisfeita. 

Arrasa, bee! 
Outra coisa que com toda a certeza foi a intenção do filme e mexe com todos a que assistem é a questão da prostituição infantil. É um tema doloroso e estranhamente abafado na vida real. Mas extremamente comum. Meninas são sequestradas frequentemente — e isso não só na Índia — para terminarem em  antros de prostituição e escravização de pessoas, e nada, nada é feito a respeito disso, porque há pessoas maiores envolvidas. A pedofilia é algo tão inerente à sociedade quanto o machismo. E isso já faz parte de toda uma cultura de estupro. Poderia passar anos falando sobre isso, mas tentarei resumir num pensamento básico: o homem é ensinado a abusar, desde sempre, da mulher. As mulheres são vistas como objetos e seres controláveis. Portanto, numa esfera totalmente criminosa, a pedofilia e a prostituição são somente reprodução da cultura de abuso que é inserida no dia a dia dos homens. Exatamente por isso os maiores pedófilos são do sexo masculino, e as maiores vítimas são meninas. O filme retrata a prostituição infantil na Índia, mas por que não podemos trazer a reflexão até mesmo a nosso cotidiano? Por que é normal que um homem feito namore alguém 20 anos mais jovem? Por que o homem idealiza uma mulher feminilizada, frágil... infantilizada? Fica a reflexão. Vai além de uma doença. É uma questão que cerne diretamente à cultura.


Por fim, uma mulher fazendo o papel que geralmente é dos homens indianos, existe algo mais digno de se admirar neste mundo? A verdade é que adoro ver tais coisas representadas em tela. Sou da opinião de que uma das formas de se vencer é pelo cansaço; sendo a sociedade indiana tão influenciada por seus filmes, que venha mais e mais empoderamento as mulheres para que aos poucos isso penetre na mentalidade indiana comum. Para que isso possa se tornar realidade. 

E assim me despeço da minha contribuição à  Semana do Poder Feminino Indiano, que acaba sendo também um pouco de poder feminino a todas nós, com a feliz conclusão de que a mulher está crescendo no cinema indiano e a esperança de que isso signifique que mudanças palpáveis virão no cenário da mulher em um país tão conservador. 

Feliz Dia Internacional da Mulher!