quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Piku (2015)



"Crime ocorre, nada acontece, feijoada" poderia facilmente ser um nome alternativo para Piku. O que quer dizer que é um filme parado, no qual pouca coisa se passa e muito se conversa. Isso significa que o filme é ruim, então? Muito pelo contrário.

Piku é basicamente sobre um momento específico da vida da estressada Piku (Deepika Padukone), seu pai Bhaskor Banerji (Amitabh Bachchan) e familiares próximos. Dentre as pequenas reviravoltas do filme, o pai decide ir de Délhi até Kolkata de carro, e nisto entra o motorista Rana Choudhary, interpretado por Irrfan Khan, outro ser maravilhoso.

"Muito gás e constipação. Que tipo de mensagem é essa?"

Este é um filme que tratará de prisão de ventre de uma forma que você nunca viu antes. E tenho certeza de que o personagem de Amitabh irá lembrar a qualquer um pelo menos uma pessoa com tendência hipocondríaca em seu círculo de convivência. O roteiro é leve e divertido, com detalhes deveras inusitados. Demora-se a entender ao que se está assistindo exatamente, mas nem por isso nos vemos menos envolvidos.


De longe, deve ter sido um dos melhores papéis do Sênior Bachchan nos últimos anos. O sr. Bhaskor é um ser único. O fato de ser absolutamente irritante e insuportável e de mesmo assim você se apegar a ele só é mais uma prova do talento do ator que está por trás. Já Deepika fez com que eu conseguisse sentir nitidamente todo seu estresse por trás da lente: o quão sobrecarregada ela se sentia em sua vida e como foi se anuviando ao longo da jornada.


Irrfan, meu coração para você. Você é tão bom ator que até em mocinho consegue se transformar e me fazer torcer por um romance num filme que sequer trata disso. Vem cá, me dá um abraço.

Piku não é um filme convencional, não tem musiquinhas ou firulas e lida com a escatologia de uma maneira totalmente inesperada. No entanto, é conduzido com tanta maestria que se torna leve e divertido para ser visto a qualquer hora.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Highway (2015)


Veera Tripathi é uma jovem rica às vésperas do seu casamento, mas não parece muito feliz com a situação. Uma bela noite, implora a seu noivo para que a leve a um passeio secreto, e ele, sob protestos, cede. Mas, como nada é perfeito, ela repentinamente vai parar no meio de um fogo cruzado de assaltantes de estrada e acaba sendo sequestrada pela gangue.

Já no seio da gangue, quando descobrem quem ela é, e filha de quem, é consenso que o melhor a fazer seja libertá-la. Mahabir Bhati, porém, sem maior desejo além do de enfrentar a própria sorte - ou revés -, resolve que a manterá cativa e tentará o melhor resgate que puder conseguir disso. Como ele mesmo diz, não há muito o que perder em sua vida de qualquer forma.

"Amor da minha vida, daqui até a eternidade..."

Parafraseando a Carol: "Tive medo de não acontecer a mesma identificação [que ocorre em outros filmes do mesmo diretor] quando li a sinopse de Highway. Parecia a história de alguém se descobrindo enquanto desenvolvia uma horrorosa síndrome de Estocolmo". Entretanto, Highway passa longe dessa impressão.

Logo de começo nota-se que Veera esconde algo por trás dos panos. Ela facilmente enlouquece, se rebela e se enquadra ao bando. Parece muito disposta a deixar para trás a vida que levava antes, uma vida de aparente conforto, luxo e riqueza. E por quê? Ao mesmo tempo, tenta aproximar-se sempre de Mahabir, que a rejeita veementemente todas as vezes, muito consciente de quem ele é e qual seu lugar na sociedade - lugar esse que sempre foi e sempre será muito distante do dela.

Nunca foi tão divertido ser sequestrada.
Mahabir é o exato retrato do anti-herói que, em situações adversas, poderia facilmente ser o mocinho. É um personagem completo e complexo, e eu, no auge do meu penhasco por Randeep, não posso deixar de admirar a forma como foi interpretado. Seus sorrisos chegaram bem fundo na minha alma, e sua ira doía também em mim. Já Veera é uma jovem desequilibrada que, no entanto, durante essa jornada parece mais próxima da própria harmonia do que jamais esteve antes. Quem esperaria que a jovem patricinha de Student of the Year chegaria tão longe e conseguiria levar a cabo com maestria uma personagem tão multifacetada quanto Veera? Bem, Alia conseguiu.

Como mãe, o filme mexeu comigo: que tipo de sociedade quero deixar para meus filhos? Que tipo de mudanças quero ver e por quais situações não desejo que eles passem? Quais impactos comportamentais tão arraigados à sociedade podem ser extremamente negativos pelo resto de nossas vidas que nem ao menos percebamos? O filme toca certeiro no machismo e na cultura de estupro do dia a dia que muitas vezes é silenciada, neutralizada e tida como normal. E eu, enquanto mãe, realmente senti mais a fundo essa questão que já é forte, especialmente pela forma como é posta no filme. É de uma sensibilidade que jamais se esperaria de um filme indiano.


A trilha sonora é pouco notável, mas condizente com o filme. É leve, ecreio que por isso cumpra seu papel. Impossível ter um musical esplêndido com tantas coisas para se refletir no filme. Seria informação demais.

As legendas também estavam excelentes! Às vezes é difícil encontrar legendas tão boas em português para muitos filmes, por isso assisto a diversos em inglês, mas a de Highway, feita pela Bela Xavier, está de parabéns.

Portanto, o que posso dizer é: deixe seus dias leves para ver filmes leves. Highway é um filme que o fará pensar, e não é pouco. Foi capaz de me deixar triste e saudosa no final. Mas é maravilhoso do começo ao fim e posso dizer que já está na lista dos meus favoritos.

Lágrimas, muitas lágrimas.
Mahabir, te amo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Dil Dhadakne Do (2015)


Mal haviam saído os primeiros trailers de divulgação de Dil Dhadakne Do, e eu já sabia que queria intensamente assisti-lo. Além de contar com o novo amor da minha vida, Ranveer Singh, teria um elenco de peso que mexia com meu coração.

Além de assisti-lo, tive também a chance de legendá-lo, e sinceramente o processo de legendar foi tão prazeroso, uma legenda tão tranquila e bem-feita, que as quase três mil linhas correram rápidas e fáceis, e em uma semana terminei de traduzir e corrigir.

Dil Dhadakne Do (tradução: Deixe o Coração Bater) é todo sobre os Mehras, uma família da alta sociedade que, por trás das aparências, vive um cenário de caos iminente. O casamento dos pais, Kamal e Neelam, está morto há muito tempo; Kabir, o filho mais novo, não deseja herda a companhia do pai e não pode seguir seus sonhos; e Ayesha, a mais velha, vive um relacionamento infeliz com seu marido retrógrado e machista. E a confusão só tende a piorar quando todos partem para um cruzeiro em comemoração aos 30 anos de casamento de Kamal e Neelam, que é o local onde toda a história é centrada.



Um ponto alto do filme, para mim, é a narração de Pluto, o cachorro de Kabir, que também se considera membro da família e enxerga os humanos como seres irracionais. Com suas tiradas engraçadas e reflexões profundas porém irreverentes da sociedade, ele consegue provar seu ponto mais de uma vez. É de se gostar ainda mais ao saber que o simpático animal é dublado por ninguém menos que Aamir Khan.

Cada ator parecia bem enquadrado em seu papel. Esse filme teve uma comunicação através do olhar entre os membros dessa família como não vi em quase lugar nenhum em Bollywood. Mas confesso que a atuação da Priyanka, dentre o resto, foi somente mediana: ainda se sente muito da atriz por trás da personagem e pouco da personagem em si. Farhan Akhtar foi outro que não me convenceu, simplesmente. Seja por não ter sido real enfoque do filme, seja porque ele tem falado tantas asneiras que minha simpatia morreu... seja como for, não superou expectativas. E confesso que foi engraçado e inusitado ver Rahul Bose no papel de marido retrógrado e machista. Quem não conhece até pensa.

 

 

Alguém já percebeu que a sina da Shefali Shah é estar sempre fazendo papéis de mulheres mais velhas do que ela realmente é? Observei isso também em Mohabbatein (de 2001), no qual ela, aos 25 anos, fazia papel de mãe de família! Em Dil Dhadakne Do, aos 43 anos, ela nunca teria idade para ser mãe de Priyanka, de 30, e Ranveer, de 28. Bem, de qualquer maneira, seu ar de classe caiu como uma luva para Neelam, maravilhosa.

A trilha sonora... Ah, a trilha sonora... Maravilhosa. Shankar-Ehsaan-Loy acertaram o dedo no sucesso, mais uma vez. Gallan Goodiyan, a queridinha de muitos, é minha preferida. Mas Pehli Baar, Phir Bhi Yeh Zindagi e Girls Like To Swing não ficam para trás em nada. Já Dil Dhadakne Do tem um ritmo contagiante, se conseguirmos ignorar o fato de que Priyanka e Farhan não nasceram para brilhar ao microfone.

   
Ram dançar!

Tá permitido me seduzir sim,
obrigada por perguntar.

Como esperado de Zoya Akhtar, diretora também de Zindagi Na Milegi Dobara (2011), o clima é de sessão da tarde. A história é receita de bolo, com algumas pequenas surpresas aqui e ali. A questão principal do filme, no entanto, é como ele lida com as relações interfamiliares dos Mehras e com os sentimentos individuais de cada um, e isso o faz com leveza e maestria.