domingo, 29 de dezembro de 2013

English Vinglish (2012)



Estive afastada desse blog, não é mesmo? Bem, mas, a pedido de uma certa querida bollywoodiana, vou tentar escrever mais frequentemente aqui.

Ultimamente minha vida no cinema indiano tem sido calma, parada, sem muitas novidades, porém algumas expectativas (Ram-Leela! Ram-Leela! Ram-Leela!). Lembro que, antes de English Vinglish, o último filme que vi foi metade de Yeh Jawani Hai Deewani, que ainda não consegui terminar - shame on me.

Como cheguei a English Vinglish, um filme incomum no meu repertório usual? 

Um belo dia dona Carol chegou e perguntou: "Já viu English Vinglish? É um filme que mexeu comigo, queria poder conversar sobre". E, no mesmo instante, pensei: se o filme mexeu com ela, das duas, uma: ou é muito ruim... ou é muito bom.

Votei na segunda opção e resolvi pesquisar um pouco sobre o filme antes de baixar. Me interessei logo de cara: uma mãe dona de casa indiana resolve aprender a falar inglês por causa da família e acaba superando um bando de obstáculos no meio do caminho. E, sabe como é, qualquer coisa envolvendo língua e aprendizado de novos idiomas ainda mexe muito comigo. Você sai da letras, mas a letras não sai de você, como diriam os bons. 

Baixei, e, em pouco tempo (obrigada, tecnologia), tinha o filme para assistir. Já estava bem animada.

Shashi, representada por Sridevi, é uma típica mãe indiana dona de casa que vive sua vida tranquilamente cuidando dos filhos, do marido homem de negócios ocupado e tem como "hobby" fazer ladoos. Porém, logo de início já percebemos que existe uma barreira que Shashi não consegue superar, e essa é o inglês. 

Numa das primeiras cenas, ao pronunciar "tchás" em vez de "jazz", desperta graça nos filhos à mesa e no marido, já mostrando que a filha mais velha não deixa barato, sempre notando seus erros e rindo ou se envergonhando deles. Algumas cenas depois, a filha precisa ir levar um representante ao colégio, e o pai não pode ir; ela expressa que não deseja que a mãe vá porque não sabe falar inglês; Shashi decide ir, passa por uma breve saia justa com uma mãe que só se expressava em inglês. Mas contorna maravilhosamente o obstáculo quando conversa com o professor da filha. É incrível a humildade de Shashi quando diz a ele que tudo o que deseja saber é se sua filha é uma boa aluna. Ao sair da reunião, no entanto, é repreendida pela filha por ter falado sobre comida com o professor, assunto banal em seu ponto de vista.

Nesse momento, você se sente indignada com a filha. E em muitos outros mais, nos quais ela deliberadamente mostra à mãe suas fraquezas; aliás, sua única fraqueza: o inglês. Seu filho mais novo, porém, é um menino doce todo o tempo.

Então começa a real história do filme: a filha da irmã de Shashi, que mora nos Estados Unidos, resolve se casar. O casamento, é claro, será na América. E Shashi, como tia e indiana típica, deve ir antes da família para ajudar a irmã a organizar a cerimônia. Ela se sente apavorada, pois não sabe um pingo de inglês, mas o marido garante que tudo vai dar certo e, na verdade, é extremamente categórico: ela tem que ir

O que mais ela poderia fazer? Vai, é óbvio. 

Engraçado observamos que, na cena da entrevista do visto, ainda na Índia, o americano, ao ver que Shashi não sabe falar seu idioma, pergunta o que ela vai fazer nos Estados Unidos se não entende inglês, ao que é prontamente respondido por um indiano: "Bem como você está na Índia sem saber falar hindi". Achei tão sensacional que até voltei a cena pra poder aplaudir de novo esse diálogo.

Já no avião, outras saias justas começam a aparecer. Ela não entende a aeromoça. Mas graças ao seu vizinho de assento, ninguém menos que Amitabh Bachchan, tudo corre bem. Ele não só interpreta o filme que está a passar na tevê do avião como também conversa com ela durante o voo. Tudo corre bem, chegam aos Estados Unidos e Shashi reencontra sua irmã e se hospeda em sua casa.

Depois de mais alguns transtornos, pouquíssimo depois de sua chegada, Shashi percebe a língua, mais que a linguagem, é uma barreira importantíssima, quase intransponível. E quer contornar a situação. Então procura um curso rápido de inglês - aprenda em quatro semanas, veja só! O tempo exato até o casamento - e se matricula, sem muitas delongas e hesitações. As aulas do curso começam, com um professor pra lá de afetado e borboleto (adoro!), e seus colegas de turma vêm de todos os lugares, por motivos diferentes: um indiano, um paquistanês, uma moça hispânica, um africano, uma chinesa e um francês.

Aí a dinâmica do filme começa a mudar. Primeiramente, Shashi está longe de sua família, disposta a aprender inglês a qualquer custo. Segundo, começamos a conhecer seus novos colegas de classe e seus motivos de querer aprender o novo idioma e superar seus obstáculos. É muito interessante mesmo notar como a língua é motivo de preconceito indiscutivelmente, uma vez que sabê-la bem ou mal define sua relação interpessoal em diferentes níveis.

Nesse período, acaba se aproximando mais do francês Laurent, que desde o começo deixa claro seu interesse pela nossa heroína. Laurent é chef de cozinha, e é muito interessante que desde o começo, ao saber que Shashi se dedica a fazer e vender ladoos na Índia, a vê como uma semelhante. O que ela chama vê como dever natural à mulher e esposa, ele vê como escolha. Ele mostra a ela que cozinhar também é uma arte, que fazê-lo bem é uma arte, mais que um dever. Fiquei emocionada com o contraponto, já que logo no começo do filme ouvimos o marido de Shashi rebaixar a tarefa de fazer ladoos a algo restrito a pessoas não instruídas, dentre outros pequenos detalhes.

Abrindo um parêntese, foi muito simpático ver um ator que fez 3 Idiots (alguém lembra da cena do mijo? Do veterano que sacaneava o Silencer?) no meio da classe de Shashi como um indiano simpático. Coraçõezinhos eternos.

Enfim, se continuar escrevendo a história vou acabar narrando o filme todo, e vocês já têm o filme para ver. 

Assim que o filme acabou, entendi perfeitamente por que havia mexido com a Carol. Mexeu muito comigo também. Por diversos motivos diferentes.

O primeiro deles relativo à superação de Shashi quanto ao idioma. Ela consegue, com sucesso, entender mais do que o básico de um idioma completamente novo em menos de um mês. E é humilde o tempo todo, sempre voltada à família, que parece que esse sacrifício a si mesma é algo novo, estranho. Ao mesmo tempo, é aí que ela se descobre - ou se afirma - como pessoa, como parte de uma identidade única. Tanto é que o final do filme nos surpreende justamente por nos impressionar e, ao mesmo tempo, nos decepcionar, já que ela mantém-se extremamente fiel a seus valores e princípios, o que para nós, ocidentais, é uma realidade quase inexistente.

O segundo é em relação aos valores. Estou eu aqui, mais uma vez questionando valores. Shashi é a típica mulher indiana. E por que isso me indigna tanto? Por que não consigo simplesmente entender e aceitar? Porque não consigo conceber uma mulher que se permita ser deixada de lado pelo marido e inferiorizada de alguma forma. É claro que ela conseguiu dar a volta por cima, e como! Mas até que ponto ela realmente deu a volta por cima? Em que momento isso vai acabar? Ela põe a família acima de qualquer noção de bem estar, outra coisa que eu, no mundo da individualidade, também acabo rejeitando. Mais uma vez, o filme também supera esse obstáculo, mas Shashi nos traz à mente o exemplo de outras tantas mulheres por aí que, infelizmente, não o superariam.

Falando sobre outras coisas, gostei muito da Sridevi no filme. Que, aliás, foi o primeiro que assisti com ela. Transmitia o tempo inteiro uma postura de humildade, de timidez e recato muito gostosa, de se envolver com a personagem. Apesar de estar parecendo o Michael Jackson, nas palavras de uma deewani que conheço.

Sinto que meu post ficou confuso, corrido e ao mesmo tempo muito extenso. Mas só posso concluir dizendo uma coisa: assistam ao filme. E também acrescentar que o post está passível de edições a qualquer momento, já que conclusões sobre a história e novas coisas a posicionar aparecem o tempo todo em minha mente. É uma história tocante, marcante e ao mesmo tempo muito simples, sem nenhum item number sequer, de uma leveza sem fim.