sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dirty... Sad Picture

 
Aviso: o post contém spoilers sobre o filme. Se não quiser saber nada além do elenco e das músicas, não siga em frente. 

O título da postagem é um bocado sugestivo. Ao longo do post entenderão por quê. 

Garanto que o filme não era nada do que eu estava imaginando e esperando. Confesso que deveria ter lido um pouco mais sobre a história de Silk Smitha, em quem o filme foi inspirado (caráter semibiográfico, Isa, por que não leu isso?). E se você for se guiar por Ooh La La também se surpreenderá mergulhando numa certa melancolia após um tempo. Explicarei.

"Aah, aaaah, aaaah!"
A história é a seguinte: Reshma é uma jovem de interior bem interior mesmo que foge de casa cedo, não queria se casar, e logo no começo do filme já mostra uma inclinação pra safadeza singular. A "safadeza" é logo numa das primeiras cenas, quando o casal vizinho está tentando (ou seja lá o que for) fazer sexo, e ela, para desconsertá-los, começa a gemer alto, bem alto; funciona, e o casal desiste. O maior sonho de sua vida é ser atriz famosa, e ela corre atrás disso em audições e audições. Muito bem caracterizada a personagem, por sinal: de pele bem escura (mais escura do que estamos acostumados em se tratando de Vidya Balan) e sem maquiagem. Digamos que "sem graça" para o ver indiano, mesmo achando a Vidya linda de qualquer jeito. 

Numa dessas audições, um moço diz que ela não tem talento pra coisa, que desista daquilo e lhe dá algum dinheiro para comer. Ela, em vez de utilizar o dinheiro para isso, vai ao cinema assistir seu ídolo-mor, Suryakanth (o tio Naseeruddin Shah). No cinema, um tipo repugnante se senta ao lado dela e começa a dar em cima dela descaradamente, dizendo que pagaria pelos serviços dela. Reshma finge estar ponderando a proposta, com o dinheiro nas mãos, mas, quando ele passa seu braço em volta dela, a jovem lhe diz poucas e boas e sai do cinema... com o dinheiro. Acho uma cena interessante a que vem em seguida: ela para em frente a uma daquelas estátuas de deuses com a nota na mão... pensando em colocá-la lá, talvez fazer um pedido, e lhe vêm à mente as palavras cruéis do moço da audição. Mas aparentemente desiste de oferecer o tributo e vai embora. (Por que narrei isso tudo? Nem eu sei. Talvez para terem noção de como o cenário da vida dela foi construído.)

E é na próxima cena que vem sua chance de ouro. Após devolver o dinheiro para o moço da audição, se encontra no make de um song-and-dance particularmente doloroso - um rapaz acertava uma chicotada nas costas da moça, que tinha que seduzir o público e dançar enquanto isso -, Reshma é a única que se propõe ao papel. Lá vai ela, dançar, seduzir, fazer caras e bocas, mostrar a linguinha, ser a Vidya linda que vimos nos trailers do filme. O diretor do filme, Abraham (Emraan Hashmi, para alegria da moçada), ao ver o resultado daquela gravação em seu lindo filme, tem uma crise de ódio mortal e manda cortarem a cena. Enquanto isso, Reshma, toda feliz, chama a amiga íntima (ou sei lá o que aquela senhora era) para ir à estreia e ver sua primeira experiência como atriz... e acaba humilhada por um cara particularmente grosseiro no cinema, quando o filme termina e nada de Reshma sendo chicoteada sensualmente. A pobre vai para casa deprimida e assim se passam os dias: trancada no quarto, sem ânimo pra vida. 

Sensualize, pequena Vidya, sensualize!
Porém, como a justiça divina existe, o filme de Abraham acaba não fazendo o sucesso esperado. Um belo dia o produtor, Selva Ganesh (who? Um tal de Rajesh Sharma) dá uma olhada pelos perdidos arquivos de filmagem e encontra o clipe sensual de Reshma. E se encanta. Exige que seja utilizado no filme, uma vez que, sem ele, jamais será um sucesso de bilheteria. E assim é feito. Reshma começa a aparecer em cada cinema indiano, e, tal como previsto, o sucesso na bilheteria é tremendo: homens de todos os lugares ansiosos para verem a nova deusa da sensualidade (homens indianos e seu desespero por mulheres, como lidar?). E Selva decide que quer Reshma, até então uma total desconhecida, como atriz de seus novos sucessos. Começa então a busca pela jovem cujo nome nem ao menos conhecia. 

Até que descobre onde Reshma mora e vai até ela. A deprimida jovem encontra mais um motivo para viver, vendo que a desejam como atriz, e Selva a transforma em Silk, seu mais novo projeto. Acho bonitinho que a Silk começa a chamá-lo de "Kira Das" (ou coisa do tipo), algo como "sr. inseto", já que a seda (silk) é feita por eles. 

Mas o começo de Silk, como toda sua vida, teve seus percalços. Na sua primeira gravação importante com seu ídolo do coração Suryakanth, Silk se sente tão nervosa que não consegue deixar a cena fluir. Surya, que viemos a descobrir um rapaz mimado crescido (e põe crescido nisso), sai de cena, se senta em seu trono poderoso e diz que com ele não há segundas chances. Porém Silk, que não está de brincadeira, vai ao camarim do poderoso Surya e dá um jeito de convencê-lo a aceitá-la novamente... E que jeito, vocês podem imaginar? Um jeito dirty, muito dirty.

O que importa é que dá certo. Silk se torna famosa, amada pelos homens, invejada pelas mulheres. Seu sucesso é muito, chega Ooh La La, seu caso com Suryakanth vai de vento em popa. Mas é claro que isso não pode durar também. Mais um belo dia, quando Silk está na cama com o amante, a esposa dele bate à porta. Sim, ele era casadíssimo. E ele a manda voar para o banheiro e esperar lá. A esposa entra no quarto. O mais chocante? Silk, da fechadura da porta, consegue observar a cena que se desenrola à sua frente: Surya fazendo sexo com a esposa. Isso mesmo! Canalhice sem limites, certo? Esse, no entanto, era o jeito de Suryakanth, e ele nunca fez questão de esconder isso, com sua cara de canastrão e seus cigarros sempre à mão.

E é mais ou menos por aí que começa o envolvimento de Silk com o irmão de seu ex-amante, Ramakanth (Tusshar Kapoor, mais um). Ramakanth, um rapaz completamente embasbacado por Silk. Um bobão de marca maior, vocês conseguem imaginar, daqueles que a olham embevecidos de admiração o tempo todo, não importa o que ela fizer. E Silk se aproveita disso, deita e rola no pobre rapaz. Qualquer coisa para ele é como se fosse um grande presente: um olhar, um beijo na bochecha. Ele é claramente o oposto de Suryakanth no quesito "personalidade", uma vez que não é promíscuo e nem gosta de ver Silk sendo; quer passar por todas as etapas de um romance como um indiano tradicional. Ramakanth é escritor, e ela o incentiva bastante.

Bom ressaltar que nesse meio-tempo existe Naila, uma jornalista sensacionalista que de certa forma adora Silk e considera que tenha tudo para decolar eternamente: uma personalidade desmedida e impensada, mas extremamente encantadora. No entanto, não cansa de escrever barbaridades a respeito dela, e por vezes é justamente isso que move o público para o sucesso de Silk. Uma cena que mostra bastante a admiração da jornalista pela atriz é a de um award, em que Silk, ferida pelos comentários e pelo fim de seu romance com Suryakanth (também premiado), faz um discurso todo "vocês vão ter que me engolir" à la filmes indianos e sai de cena. Naila fica encantada.

Sensacional também é a discussão que Silk trava com Abraham, logo no começo. Ele não se conforma de jeito maneira que a inteligência de seus filmes seja subestimada em virtude da sensualidade banal da atriz e expressa isso. E Silk, sempre Silk, muito sedutora, diz a frase mais célebre de todas: "Filmes só precisam de três coisas para vender: entretenimento, entretenimento, entretenimento. E eu sou o entretenimento". Abraham, como se pode imaginar, fica fulo da vida e vai embora. Mas nunca engole. Durante todo o filme ele não engole o sucesso de Silk, de jeito nenhum. 

Engula: entretenimento, entretenimento, entretenimento!

Na minha cabeça no momento se torna um pouco incerto como decorreu o declínio da carreira de Silk no filme. Talvez tenha sido no momento em que ela deixou Suryakanth e começou a pisar em suas feridas, talvez... Caso é que seus filmes começaram a fazer menos sucesso, suas tentativas ficavam mais falhas... Seu romance com Ramakanth avançava, e Silk, cada vez mais afundada em si mesma, não correspondia às expectativas do rapaz apaixonado. O relacionamento dos dois desmorona após o clipe de Honeymoon Ki Raat, na qual ela faz um papelão na frente dos pais dele competindo com uma nova wannabe a Silk e invejosa, Shakeela. Só pra ressaltar: Shakeela realmente existiu. E deliciem-se com a aparência sedutora da jovem:

"Vim te seduzir no sabão, gatinho!"

Daí por diante começa a desgraça na carreira de Silk. Ninguém a quer mais em seus filmes. Ainda há um tentativa de fazer sucesso com Kira Das, porém não dá muito certo: o filme acaba sendo um fracasso de bilheteria e perdendo para o novo achado do cinema, adivinhem quem? Nosso bom e velho Abraham. Seu filme ultrapassa a bilheteria de um filme de Silk. Parece que, afinal, ele compreendeu que um filme precisa de três ítens somente para vender: entretenimento, entretenimento e entretenimento. Vale observar que Silk engorda um bocado nesse meio-tempo; barriguinha saliente mais saliente, rosto mais rechonchudo... 

Academia, pra quê?

E é assim que começa meu momento preferido no filme: Emraan em ação! De alguma forma que só a vida é capaz de fazer, Abraham começa a se aproximar de Silk. E a se intrigar com Silk. E a pensar frequentemente em Silk. Quando vê, já está completamente enfeitiçado. De uma forma estranha, aquele ódio que quer se tornar amor, aquele sentimento de conflito interno: como alguém tão detestável pode ser tão adorável? O humor ácido dos dois os une de uma maneira incrível. Silk, nostálgica e altiva, porém triste. Ishq Sufiyana chega com tudo!

Me diz como não se apaixonar pelo olhar dele, me diz?

Porém, quem ler a biografia da real Silk Smitha deve imaginar que a felicidade seria interrompida. Como e por que é possível deduzir pelo andar da carruagem, mas não irei contar aqui. Vocês que assistam o resto para se emocionar com o que irá acontecer. Pelo menos me emocionei, a ponto de terminar o filme com aquela lágrima solitária escorrendo pelo rosto.

Coisas que gostaria de ressaltar a respeito de Dirty Picture...

Obviamente, é um retrato decadente. No entanto, ele não acaba como um peso, como ocorre com a maioria deles. Parece que o filme é retratado numa redoma, como se preso a um cenário. Ao mesmo tempo que é denso, não é. Os atores cumprem perfeitamente seu papel, com destaque pra Vidya (que nem é preciso dizer), Naseeruddin e a revelação de Emraan Hashmi. Naseeruddin está ótimo como ator canastrão que, aos 60 e tantos anos, ainda interpreta jovens universitários - um aspecto bem realista. Vidya consegue ser perfeita como sedutora e inclusive bem melhor que a verdadeira Silk Smitha (foi mal, Silks). E Emraan é o que eu chamo de "revelação de fim de filme", que surge como uma delicada brisa no ar.

As músicas do filme, infelizmente, não são o seu ponto forte. Com exceção de Ooh La La, linda e diva, as outras duas não me impressionaram muito. Honeymoon Ki Raat pra mim não teve ritmo, não teve cena e foi muito malfeita; não gostei. E Ishq Sufiyana foi aquele clichê de romance apaixonado que, pra mim, já não tem mais graça e nem fez tanto sentido com o espírito do resto do filme. Então o que tenho a dizer sobre quem bolou o esquema song-and-dance do filme: tente outra vez!

Nesse exato momento não consigo me lembrar de uma das maiores reclamações quando o filme acabou. Mas algo aqui dentro sente que faltou densidade e ambientação nele. Entendam, a história é algo denso, mas isso foi em algum momento mal-retratado, ou então passado rápido demais. Não sei dizer em que aspectos, porém a sensação que ficou foi essa. Quanto à ambientação, Silk Smitha, pelo pouco que se pode ver no youtube, foi extremamente simples, regional até, de uma sensualidade crua. Não consigo imaginá-la tão glamourosa quanto Vidya. Ok, esqueçam o que disse sobre ambientação, está ótimo do jeito que está! 

A conclusão final é que, mesmo com seus ens e poréns, Dirty Picture teve a capacidade de me fazer ficar com sua imagem na cabeça constantemente e reviver vários momentos, a ponto de me sentir nostálgica ouvindo Ooh La La. Sem contar que terminei de assisti-lo com o coração inchado de amor pelo Emraan Hashmi como nunca. É marcante e ao mesmo tempo não é, algo difícil de explicar, e nada melhor para entenderem-no do que assistirem também. 

Por hoje é só, fico por aqui. :)