quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Divagações de Dostana


Estava eu uma madrugada vendo vídeos bollywoodianos e aquecendo meu coração, quando me deparei com Desi Girl, de Dostana. É impossível ver o song-and-dance e não sorrir sequer uma vez. Talvez pela beleza do John Abraham, das expressões cômicas do Abhishek, ou simplesmente pelo ritmo, que, quando você vê, já está acompanhando. Então resolvi rever o filme. Foi no youtube mesmo, qualidade BluRay (na medida do possível).

Lembro que foi amor à primeira vista do coração esse filme. Mostrei para os papagaios e periquitos daqui de casa assim que eu vi (leia-se mãe), que também aprovaram meu gosto. Por quê? Porque Dostana é um filme fácil de se apaixonar, te dá todos os ingredientes para isso: a beleza, os diálogos simples e coloquiais, a pitada de comédia. A história que, para mim, pareceu interessante e diferente: dois homens que, para conseguir morar em um apartamento digno de milhões, se passam por um casal gay, com direito a todas as consequências inusitadas que isso pode trazer, e acabam se apaixonando pela bela moça que divide o lar com eles...

No entanto, acho que mudei muito com o passar do tempo em relação a Bollywood. Quando se conhece mais de filmes indianos, você começa a pegar certos detalhes, como: esse filme é genuíno e esse filme foi feito pra vender. Às vezes você encontra os dois num filme. O que não é o caso de Dostana. O filme, como todos com o dedo do Karan Johar, foi feito pura e simplesmente pra vender. Tanto por se passar nos EUA, onde todos têm a vida perfeita, como por ter cenas até tão forçadas em quesito de atuação e sequência. 

Pra que correr? Pra que cair?!
Por exemplo, no começo do filme, quando Kunal (John Abraham) e Sam (Abhishek) conhecem a tia de Neha (Priyanka Chopra), há uma cena qualquer em que Sam conversa com a moça e a tia vai se aproximando; há aquele close na face de Kunal, e ele sai correndo em direção a Sam gritando "Cuidado com a tia!" e acaba caindo abraçado em cima dele. Ou seja, cena forçadíssima pra causar aquele momento de comédia gay: oh, ele caiu em cima do outro! Oh, como estou rindo! Da primeira vez que assisti provavelmente tive essa reação. Mas ontem a única reação que consegui esboçar foi: por que diabos isso está acontecendo?

Não estou dizendo que não tenha conseguido me divertir e que todas as cenas de comédia são forçadas. Não, eu sorri e ri em algumas cenas, mas dá pra perceber que muita coisa é forçada. O filme não se encaixa; nele ocorrem fatos inusitados (e que soam até falsos) pra que haja um seguimento minimamente coerente e engraçado. Em algumas cenas eles conseguem, em outras não.

Devo a graça do filme em sua maior parte ao Abhi. Ele tem o talento para comédia, e eu já sabia disso, só estava ratificando. Por ele ser aquela coisa alta, sem jeito, meio sem beleza (pobre Abhi), qualquer expressão que ele faça já é engraçada. E ele ainda sabe puxar aquele jeito cômico que as cenas exigem, então casa perfeitamente. Sem contar que só vê-lo tentando sensualizar me faz rir. Só deu certo em Umrao Jaan (ele estava sexy, ok?), mas  em Umrao Jaan...

Outro aspecto extremamente apelativo do filme é o ser chamado John Abraham. Cenas e mais cenas sem camisa, com seus músculos brilhosos expostos ao sol... Quase um Jacob de Crepúsculo. Foram pouquíssimas as cenas em que o rapaz aparecia com uma camisa que não mostrasse seu peitoral definido, e, mesmo assim, sempre dava um jeito de exibir o resultado de seus meses na academia. E quer saber? Eu estava odiando John Abraham faz uns meses por algum motivo que nem eu sabia, mas meu lado menininha histérica se sentiu extremamente agradado por cada cena sensual deste jovem no filme, o que significa que de alguma forma o perdoei. Então, bem, acho que a tática funcionou, certo? Vide a quantidade de mulheres que se perdem nas fotos de divulgação do filme. 

Agora imagine essa cena o tempo todo.

Outra coisa que me desagradou e vive me desagradando em filmes indianos que se passam fora da Índia: como eles conseguem ser tão certeiros em encontrar indianos espalhados pelos EUA? Veja bem, a Neha trabalha numa agência top de moda e tem um dos cargos mais altos; já começa estranho por aí (foi mal, mas é... mesmo sendo a Priyanka Chopra). Depois, o chefe dela é um indiano, o Boman Irani (que estava ótimo no papel - será que esse cara é capaz de ser tudo nessa vida?). E então o chefe resolve pôr outra pessoa em seu cargo, já que vai mudar de revista, e quem aparece? Outro indiano! O Bobby Feioso Deol dessa vez. Engraçado como esses indianos também são todos bem-sucedidos. Será que o nome dessa empresa era "Khubsoorat" ou algo do tipo e eu perdi esse detalhe? Sem contar que todos os americanos em si que aparecem no filme exercem um papel ridículo ou dispensável, como o tiozinho gay da imigração.

[Sem contar com a cena do sorvete: Neha andando alegremente pela praça, quando topa com uma criança e derruba seu sorvete. Tendo Miami sei lá quantos milhões de habitantes, o destino a faz esbarrar justamente com um menino indiano e - agora o Capitão Coincidência se superou - filho de seu chefe, o anteriormente citado Bobby Não-Sexy Deol.]

Devo dizer que esse aspecto acima me enerva imensamente porque isso não é a vida real. Mesmo que os indianos vão para a América e se fechem em seus pequenos círculos, ainda assim existirão americanos (ou latinos, ou whatever) que conviverão com essas pessoas e terão um papel importante em suas histórias. Isso em termos de vida real. Mas, já que estamos falando de indústria indiana para consumo, talvez faça sentido todos serem indianos e falarem hindi... Deve dar mais trabalho arranjar algum ocidental que vá falar hindi pros filmes (pobre mulher de Lagaan). Ok, estou indo longe demais agora. Provavelmente alguém irá discordar desse meu ponto de vista.

Bem, funcionou com ela.
Mais uma coisa: até entendo a fama do Bobby Deol. Colocá-lo de galã, tudo bem, até rola. Agora, mais galã que Abhishek e John Abraham juntos? Nem se você fosse o filho perdido de Raj Kapoor com Nargis, meu caro Bobby. Nas cenas em que ele fazia aquela expressão de "estou te seduzindo, baby" me dava uma vontade de chamar a produção e regravar o filme, trocando o ator. Não rolou comigo. Tudo bem, eu abro uma licença pra expressão poética do filme, até porque o personagem era um amorzinho, super apaixonado e devotado pela Neha. (Mesmo que no final do filme ele veja Sam e Kunal se beijando e diga: "Eu não faria isso por ninguém, Neha, nem por você". Bem, eu faria; não deve ser tão difícil assim beijar o John Abraham, deve?)

Quanto às atuações, eu diria que esse filme foi todo do Abhishek e acabou. A Priyanka fez o que sempre faz, apesar de eu ter adorado a expressividade da personagem em algumas cenas. E o John Abraham me desapontou nesse aspecto, porque eu achei suas reações faciais muito lentas (acontecia algo ruim: Abhi já estava com aquela cara de "que diabos?", enquanto John continuava com a mesma poker face de antes). Mas por que iremos prestar atenção ao rosto do homem se temos seus músculos? ;)

As músicas do filme também não são um ponto forte para mim. São bem ocidentaizinhas, sem os toques de que eu costumo gostar, mas até que ficam um pouco na cabeça, como Desi Girl, Jane Kyun e Maa Da Ladla. Aliás, acho que Desi Girl salvou o filme nesse aspecto: um bom song-and-dance e Sunidhi Chauhan. 

Ver o filme e ter essas opiniões sobre ele me fez refletir um pouco. O que mudou em mim para ter tantas críticas a respeito de um filme que eu idolatrava? Não deixei de amar Dostana, porque ainda me faz sorrir (o que é muito importante). Só consegui perceber vários aspectos superficiais que diferem do mais puro e pyaar que Bollywood pode oferecer. Ao mesmo tempo, porém, é um ótimo filme para quebrar aquela sensação de quando você está assistindo a filmes "da terra" (sáris, casas de família, pais possessivos, SRK, essas coisas) demais. 

Acho que divaguei demais, não é mesmo? Até a próxima. :D